AUTOMOTIVE BUSINESS – PERSPECTIVAS – São Paulo – SP – FEV/2016 – Nº 37 – Pág. 48 a 50
AS MONTADORAS DEVEM TRAÇAR ESTRATÉGIAS PARA LIDAR COM ALTO GRAU DE CONECTIVIDADE A BORDO DOS VEÍCULOS E UM GIGANTESCO VOLUME DE DADOS VALIOSOS
No recente estudo Metalsmith or grid master: the automotive industry at the crossroads of a highly digitalized age, a consultoria KPMG procura desvendar o complexo cenário que envolve o dilema das montadoras: manter o status de fornecedores de veículos, como vêm fazendo há décadas, ou avançar para se tornarem mestres da mobilidade e da conectividade, capazes de processar os valiosos dados que as novas tecnologias proporcionam, interpretar as necessidades dos usuários e abrir novas fontes de negócios e receitas.
Nesse contexto, como ficarão definidas as missões de companhias como Google, Apple e Tesla e suas potenciais rivais (ou parceiras?), que são as fabricantes de veículos? O caminho passará por uma colaboração entre essas empresas ou por um possível embate? A evolução do automóvel passará necessariamente pelo Vale do Silício, onde se expandem as tecnologias relacionadas a conectividade e direção autônoma, com um vigor que espanta a indústria automobilística? Mais ainda: Google, Apple e Tesla vão se tornar clientes dos fabricantes de veículos e customizar os produtos ao gosto dos clientes, aparelhando frotas de veículos autônomos?
A Ford deu uma pista de suas estratégias na abertura da Campus Party, principal feira de tecnologia do Brasil, realizada em São Paulo no fim de janeiro. A empresa apresentou a terceira geração do sistema de conectividade Sync, que oferece a funcionalidade dos smartphones a bordo dos carros e um desempenho intuitivo, com acesso por comando
de voz a aplicativos de uso diário, além de prometer velocidade na conexão com os recursos do celular, entretenimento e navegação.
O Sync 3, compatível com os sistemas CarPlay, da Apple, e Android Auto, do Google, para interação com os novos smarthphones e aplicativos, eleva a presença do sistema de conectividade a mais de 15 milhões de veículos no mundo. “A Ford tem participado dos maiores eventos de tecnologia globais”, disse Steven Armstrong, presidente da Ford América do Sul, revelando o interesse da companhia e também que a montadora não pretende ser apenas uma fabricante de veículos, mas uma empresa de automóveis e de tecnologia voltada para a mobilidade.
DESAFIOS
A análise da KPMG indica que após décadas de sucesso altamente previsível, com um modelo de negócios inalterado, a indústria automobilística enfrenta desafios ímpares em uma era de mudanças nos conceitos de mobilidade e conectividade, com pressões de todos os lados. As regulamentações relativas ao meio ambiente e sustentabilidade, entre outras questões, estão levando a mudanças importantes e fundamentais nos produtos das montadoras tradicionais.
Estão distantes os dias em que o veículo era visto com um simples meio de transporte. Muitas montadoras, no entanto, segundo a KPMG, estariam ainda subestimando um fato em particular: no futuro o carro em si não será mais visto como único foco. As atenções estão se deslocando cada vez mais para os dados do usuário, que poderão ser aproveitados para gerar fluxos inteiramente novos e escaláveis fontes de receita. A explicação é que o carro totalmente conectado é uma máquina capaz de gerar um gigantesco volume de dados.
Empresas high tech, como Apple e Google, já estão mostrando o que a tecnologia e a digitalização podem oferecer em todas as áreas de nossa vida, incluindo o automóvel e
tudo o que está à sua volta. A KPMG constata que, assim, os tradicionais fabricantes de veículos devem estar atentos ao futuro de seus negócios e considerar o diferente clock speed que caracteriza o ritmo de produção em operações. Em outras palavras, é preciso levar em conta que os ciclos de inovação tradicional das montadoras são acanhados em confronto com a velocidade de mudança no hardware associado à tecnologia da informação e aos softwares. Para ter sucesso será indispensável sincronizar as velocidades da inovação nesses diferentes campos.
ENCRUZILHADA
Hoje o usuário está totalmente conectado e domina uma ampla gama de tecnologias disponíveis em smartphones e tablets, que poderão ou não estar disponíveis a bordo, de forma integrada aos veículos. Caberá aos fabricantes dos carros definir se vão buscar o gerenciamento da
grande quantidade de dados associada ao uso do veículo ou vão deixar essa oportunidade a empresas como Google e Apple, entre outros players interessados nessa área. Nessa encruzilhada, as montadoras terão de definir se pretendem ser meros produtores de hardware (metalsmiths), deixando que players inovadores gerenciem os dados do cliente, ou vão evoluir, expandindo seu modelo de negócio para além da criação de veículos e dominando todo o ciclo de uso do automóvel, tornando-se grid masters. Se vacilarem nessa determinação, acabarão sendo fornecedores de veículos para Google e Apple, que se encarregarão de adequá-los aos interesses dos usuários.
Afinal, os gigantes da internet e as jovens empresas de tecnologia serão sérios rivais das atuais montadoras, na disputa pela interface com o consumidor, ou há oportunidades para colaboração? Seja qual for a resposta, não há dúvida que assistiremos lances emocionantes adiante”, disse Dieter Becker, coordenador do estudo e diretor da KPMG International.