Para sair da crise, exportar e inovar

LETÍCIA COSTA, DA PRADA ASSESSORIA ADVERTE QUE O BRASIL PRECISA INVESTIR PARA COMPETIR GLOBALMENTE E ACOMPANHAR A REVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA

AUTOMOTIVE BUSINESS – PERSPECTIVAS – São Paulo – SP – FEV/2016 – Nº 37 – Pág. 1,40 a 43

LETÍCIA COSTA, DA PRADA ASSESSORIA ADVERTE QUE O BRASIL PRECISA INVESTIR PARA COMPETIR GLOBALMENTE E ACOMPANHAR A REVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA

Ainda que o setor automotivo esteja atento às ações que o governo pode tomar para reverter o abismo das vendas e da produção, é a iniciativa privada que tem potencial para remediar a atual crise. Esta é a opinião de Letícia Costa, sócia-diretora da Prada Assessoria e profunda conhecedora e crítica da indústria automotiva brasileira. “Esse setor é muito mal-acostumado. As empresas se habituaram a pedir favor para o governo sempre que o calo aperta, mas não há dinheiro e força política para fazer algo. A saída está nas mãos da iniciativa privada”, defende.

Para ela, a única solicitação que poderia fazer sentido é a desburocratização. Redução de tributos e desonerações estão fora de cogitação, aponta a especialista. Letícia avalia que as montadoras instaladas no Brasil se acostumaram com um crescimento artificial do mercado nos últimos anos estimulado justamente pelos incentivos do governo.

O financiamento subsidiado de veículos comerciais com as condições do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) e a desoneração do IPI para automóveis e comerciais leves são as duas principais medidas que inflaram a demanda nos últimos anos, aponta ela. A executiva indica que a conta dos benefícios recebidos começou a chegar no ano passado, quando o mercado brasileiro encolheu 26,6% para 2,56 milhões de emplacamentos. E não há sinais de que a cobrança vai parar por aí.

“Este ano será recessivo para a economia em profundidade igual ou até maior que 2015. Esta crise será prolongada. Não vejo recuperação para 2016 nem para 2017. Isso é algo que deve acontecer apenas a partir de 2018”, estima, sem esconder o tamanho do buraco que se abre sob o setor. Ainda assim, ela lembra que o passado recente traz boas lições para resolver a crise atual.

Entre 1997 e 1999 o mercado nacional viu as vendas encolherem de 2 milhões de unidades por ano para 1,3 milhão de veículos anuais. O excesso de capacidade produtiva girava entre 40% e 50%. Nessa época, a recuperação veio pelas exportações, lembra Letícia. E é justamente nas vendas internacionais que ela acredita estar a saída para a atual crise. A questão é que a indústria local não conseguirá ampliar os volumes tão rapidamente sem algumas medidas. “O Brasil como um país emergente sempre será volátil. É necessário equilibrar os negócios internamente com outros mercados”, enfatiza.

MERCADO GLOBAL

Para Letícia, a inserção da indústria automotiva brasileira no mercado global precisa deixar de ser um plano futuro para virar realidade rapidamente. “O problema é que precisamos ser competitivos, com qualidade, custo, produtividade. Temos de nos perguntar se o nosso produto é exportável.” Outro aspecto apontado por ela é a necessidade de estabelecer e ampliar acordos comerciais, algo que depende também

do governo.

“Temos um mercado claro para veículos comerciais na América do Sul, mas em veículo de passeio deve demorar um pouco mais para alavancar as exportações e equilibrar o processo”, analisa. Na opinião de Letícia, a indústria local seguiu rumos equivocados nos últimos anos, o que atrapalhou a busca por competitividade.

A cadeia de autopeças acompanhou enfraquecida o crescimento do mercado nos últimos anos, sem capacidade para investir, principalmente quando se trata de pequenas e médias empresas. “Há uma necessidade de reestruturação. Há muitas companhias boas em dificuldades. É um problema difícil de equacionar”, diz. De outro lado, Letícia acredita que a inovação foi deixada de lado. Segundo ela, o Inovar-Auto, que tinha este propósito inicialmente, acabou por apenas fechar o mercado, isolando ainda mais a indústria local.

“Esta foi a primeira medida do programa, com o aumento do IPI em 2012, antes de decidir qualquer outro aspecto. No começo foi bom porque as importações estavam aumentando muito rapidamente. Mas não houve incentivo para as empresas. As companhias ficaram sentadas em um mercado fechado sem qualquer ganho real de competitividade”, acredita.

Com este contexto, Letícia é direta ao concluir que “o Inovar-Auto foi um grande atraso para a indústria”. Para ela, os supostos benefícios do programa são ilusórios. Para atender a exigência de melhoria da eficiência energética, segundo ela, as empresas trazem soluções de fora. “Não há estímulo ao processo de inovação aqui.” A consultora avalia que o programa seria mais eficiente se estimulasse a combalida cadeia de suprimentos.

A única medida do Inovar-Auto neste sentido, no entanto, ainda não provou sua eficiência. A verificação do conteúdo local começou só em 2015, dois anos depois de o regime automotivo entrar em vigor. “As montadoras têm passado as informações para o governo, mas isso é uma caixa preta. Ninguém até agora sabe o que estas métricas estão indicando.”

FALTA INOVAÇÃO

Letícia lembra que há muito tempo a indústria automotiva nacional não mostra seu potencial de inovação. Ela cita o conceito de condomínio
produtivo da MAN em Resende (RJ), como um dos avanços mais recentes, que já tem mais de 20 anos. O motor flex é apontado como outro bom trabalho nacional, mas é uma solução pouco exportável.

A especialista determina que é hora de investir no potencial nacional. Ela garante: o Brasil tem condições de se inserir na indústria global. Conseguir o status de globalizado, no entanto, exigirá que as empresas instaladas localmente invistam em aspectos como atualização do parque de máquinas e em treinamento de mão de obra. O desafio é recuperar o tempo perdido justamente em momento de recessão econômica. “De 2012 até agora a indústria ficou fechada. Lá na frente, em 2020, vai ser muito tarde. China, Coreia e Índia estão se mexendo”, alerta.

A consultora destaca que o Brasil precisa abrir mão de objetivos fadados ao fracasso para investir em áreas realmente promissoras. Uma delas é a de software, que ganha cada vez mais espaço nos carros. “Lá fora o conteúdo de eletrônica no carro já é maior do que o de aço. No futuro o software vai superar isso”, projeta.

Para Letícia, o Brasil está há muito tempo preso no conceito de que seria necessário fabricar conteúdo eletrônico, como semicondutores, localmente. Ela discorda dessa pretensão. O ideal, segundo a consultora, é alavancar o que o País já faz bem. “Nossa indústria de software é relevante e competitiva. Vemos aplicativos desenvolvidos aqui com condições de participar da indústria global.” A tendência é que este movimento se fortaleça com iniciativas como a da FCA, que criou um centro de pesquisa e desenvolvimento dentro do Porto Digital em Recife (PE), ao lado de startups e empresas especializadas em software.

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