Relatório de Mercados

No exterior, o principal tema da semana no ambiente externo foi o reforço do viés restritivo da comunicação do Federal Reserve.

A ata da reunião de setembro mostrou um Comitê mais preocupado com a persistência da inflação e menos apreensivo com os custos econômicos de curto prazo associados ao aperto monetário. O documento indicou avaliação de que a atividade econômica permanece sólida, o mercado de trabalho segue próximo do pleno emprego e as condições financeiras continuam relativamente favoráveis, fatores que reduzem a necessidade de uma postura mais cautelosa. A inflação voltou a ocupar posição central na função de reação do banco central, diante da combinação entre demanda resiliente, preços de energia elevados, possíveis efeitos inflacionários dos investimentos ligados à inteligência artificial e novos choques de oferta. O balanço de riscos tornou-se menos favorável e aumentou a percepção de que os juros precisarão permanecer em terreno restritivo por mais tempo.

As manifestações recentes dos dirigentes do Fed reforçaram o viés restritivo. Christopher Waller defendeu novas altas de juros caso a inflação permaneça resistente e a atividade robusta, pois considera o risco de desancoragem das expectativas superior ao de desaceleração econômica. Ressaltou, porém, que o aperto não precisa ocorrer em reuniões consecutivas, mas deve continuar até que a convergência para a meta esteja assegurada. Mary Daly alertou que os investimentos em inteligência artificial podem sustentar a demanda, elevar custos e prolongar pressões inflacionárias, sobretudo em um ambiente de energia cara e gargalos produtivos. Alberto Musalem, por sua vez, afirmou que a taxa atual talvez ainda não seja suficientemente restritiva para levar a inflação à meta, sinalizando espaço para novos ajustes nos próximos meses. Apesar do tom hawkish, ambos preservaram a estratégia de dependência dos dados e evitaram compromisso com uma alta imediata na próxima reunião do Comitê de política monetária americano.

À luz destes pronunciamentos e da ata da reunião de setembro, os participantes de mercado consolidaram o cenário de estabilidade na reunião do FOMC em outubro e de alta de 0,25 ponto percentual em dezembro. Para 2027, espera mais uma elevação em março.

Do lado da atividade, os indicadores divulgados não alteraram substancialmente essa leitura. O ISM de serviços permaneceu em nível compatível com expansão robusta, sustentado por demanda doméstica resiliente, recuperação do emprego e elevação dos preços pagos pelas empresas, reforçando os sinais de inflação persistente no setor de serviços.

Em conjunto, os dados e as comunicações recentes fortalecem a expectativa de manutenção de condições monetárias restritivas e preservam a possibilidade de nova alta de juros nos próximos meses. Os participantes de mercado precificam pausa na reunião do Fed em outubro e nova alta de 0,25 ponto percentual em dezembro.

Nos mercados financeiros, o avanço expressivo das grandes empresas de tecnologia sustentou o desempenho superior das bolsas americanas em relação às europeias. Os Treasuries oscilaram sem direção definida, enquanto o dólar registrou leve valorização. O petróleo manteve a trajetória de alta, impulsionado por notícias, posteriormente desmentidas, de que os EUA atacariam o Irã antes das eleições de novembro.

No Brasil, os destaques ficaram concentrados na inflação, no setor externo e na evolução do cenário eleitoral.

O IPCA de setembro apresentou resultado acima das expectativas de mercado e revelou aceleração disseminada dos preços. A pressão veio tanto dos itens administrados quanto dos livres, com destaque para energia, combustíveis, alimentação, vestuário e alguns segmentos de serviços. Mais importante, observou-se aceleração dos núcleos e da inflação de serviços, uma indicação de que a alta não ficou restrita a componentes voláteis. O resultado reforça a avaliação de que o processo de desinflação perdeu intensidade e sustenta uma postura cautelosa por parte do Banco Central na condução da política monetária.

O IGP-DI também surpreendeu levemente para cima em setembro, impulsionado sobretudo pela aceleração dos preços ao produtor. O movimento refletiu a reversão das quedas observadas anteriormente nos segmentos industriais, especialmente em petróleo, gás natural e derivados, além da continuidade das pressões em diversos produtos agropecuários. O índice ao consumidor igualmente mostrou aceleração, influenciado por energia elétrica e alimentos. O resultado reforça a presença de pressões de custos relevantes na economia brasileira e aponta para continuidade de repasses em algumas cadeias produtivas.

Na balança comercial, o resultado de setembro ficou acima das expectativas. O saldo foi favorecido pela combinação de crescimento expressivo das exportações e desempenho mais moderado das importações. Os preços internacionais de petróleo, derivados e fertilizantes continuaram a exercer papel relevante, impulsionando o valor exportado. O resultado confirma a boa performance do setor externo em 2026 e contribui para a solidez das contas externas.

No campo político, o primeiro turno consolidou uma vitória expressiva das forças de direita e colocou Flávio Bolsonaro em posição favorável para a disputa final. O candidato encerrou a primeira etapa da eleição à frente de Lula e passou a concentrar apoios de partidos de centro e centro-direita, o que reforça sua vantagem política para o segundo turno. As pesquisas divulgadas após a votação confirmam esse cenário. Levantamentos de diferentes institutos passaram a mostrar vantagem de Flávio Bolsonaro sobre o atual presidente e indicam migração favorável dos votos dos candidatos eliminados no primeiro turno. Embora a disputa continue aberta, os números disponíveis apontam Flávio Bolsonaro como favorito para vencer a eleição presidencial.

A reviravolta no cenário político, com a liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e sua consolidação como favorito à Presidência, teve impacto relevante sobre os preços dos ativos domésticos. Os investidores passaram a atribuir maior probabilidade de que seu eventual governo promova um ajuste das contas públicas. Nesse contexto, o risco-país recuou fortemente e o real se valorizou frente ao dólar, apoiado pelo intenso ingresso de recursos estrangeiros. O Ibovespa registrou alta expressiva, com destaque para os setores ligados ao consumo, à construção civil e ao sistema financeiro. Os juros futuros, por sua vez, recuaram, sobretudo nos vértices mais longos da curva. Além disso, se consolidou a visão de que o BC prosseguirá com o ciclo de baixa da Taxa Selic.

Agenda em perspectiva

Dia 14/10/26 – Pesquisa Mensal do Setor de Serviços (IBGE): projeções 0,4% m/m e 1,2% a/a, anteriores 0,0% e 0,9%, respectivamente.

Dia 15/10/26 – Pesquisa Mensal do Comércio de agosto (IBGE) – Conceito restrito: projeções 0,90% m/m e 1,60% a/a, anteriores -0,80% e 1,20%, respectivamente / Conceito ampliado: projeções 1,00% m/m e 1,90% a/a, anteriores 0,40% e 1,80%, respectivamente.

Dia 16/10/26 – Índice de Atividade econômica em agosto (Banco Central): projeções 0,20% m/m, anterior -0,22% a/a.

Dia 23/10/26 – IPCA-15 de outubro (IBGE); projeções 0,26% m/m e 4,56% a/a, anteriores 0,70% e 4,47%, respectivamente.

No cenário internacional, nos EUA, o CPI de setembro, que sai em 14 de outubro, deve acelerar de 0,40% para 0,60%, pressionado pela gasolina, enquanto o núcleo deve desacelerar de 0,3% para 0,2%. Em 12 meses, o índice cheio deve passar de 3,4% para 3,6%, e o núcleo, de 2,4% para 2,5%. No dia 15, as vendas no varejo devem perder fôlego, de 1,1% para 0,3%, com alta de 7,3% nas vendas nominais de gasolina e queda de quase 5,0% nas de veículos. No dia 16, a produção industrial deve crescer 0,4% m/m, após estabilidade, sustentada por mineração, serviços públicos e automóveis.

Na China, em 14 de outubro, as exportações devem crescer 25,4% em setembro, ante 25,0% em agosto, com apoio da demanda por equipamentos de IA. No terceiro trimestre, a alta chegaria a 26,4%, após 20,1% no segundo, enquanto as importações devem desacelerar de 28,2% para 24%. No mesmo dia, o PPI deve acelerar de 3,8% para 4,5% em 12 meses, maior ritmo desde junho de 2022, e o CPI deve subir de 0,8% para 1,1%, com pressão de itens não alimentícios.

Expectativa para os ativos financeiros

No exterior, o cenário é de aperto monetário moderado por parte dos principais bancos centrais, diante da necessidade de conter os efeitos secundários da persistência dos elevados preços do petróleo sobre a inflação. No Brasil, a perspectiva de vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial deve continuar a favorecer os ativos domésticos, como ações e títulos de renda fixa, e o real tende a permanecer fortalecido.

Este relatório é de propriedade do Banco Industrial do Brasil e não pode ser copiado ou redistribuído sem o seu prévio consentimento. Foi preparado pela 4Intelligence com o objetivo de informar e apresentar uma avaliação qualificada sobre a evolução recente e as perspectivas para a conjuntura econômica, não representando recomendação de qualquer espécie. O Banco Industrial do Brasil e a 4Intelligence não se responsabilizam por decisões de investimento ou de qualquer outra natureza tomadas com base neste relatório

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